ATLAS DA VIOLÊNCIA 2026: Homicídios Caem ao Menor Nível desde 1998, mas Mortes Não Esclarecidas Quase Dobram
O Brasil registrou 42.590 homicídios em 2024, com taxa de 20,1 por 100 mil habitantes, segundo o Atlas da Violência 2026. Corrigida a subnotificação, porém, a taxa praticamente não mudou em relação a 2023, e a queda da década não chegou da mesma forma a jovens, pessoas negras, mulheres e indígenas.

A queda registrada em 2024 desaparece quando se corrigem os homicídios “ocultos”; Minas Gerais tem o caso mais agudo, e o país segue sem medir de onde vêm as armas do crime.
Taxa de homicídios por 100 mil habitantes, registrada e estimada, 2014–2024. Fonte: Atlas da Violência 2026 (Ipea/FBSP)
Publicado em maio pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), o Atlas da Violência 2026 mostra que a taxa de homicídios registrados caiu de 30,2 para 20,1 por 100 mil habitantes entre 2014 e 2024, uma redução de 33,4%. Em números absolutos, foram 42.590 homicídios em 2024, contra 60.474 em 2014. É o menor patamar desde 1998.
O levantamento usa o Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM), do Ministério da Saúde, que se baseia nas declarações de óbito, e não os boletins de ocorrência. Por isso, os números do Atlas não coincidem com os do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, que reúne registros policiais.
A queda e o que ela esconde
A década teve três fases. Os homicídios subiram até o pico de 65.602 em 2017, caíram de forma abrupta em 2018 e 2019 e recuaram lentamente de 2020 a 2024.
O ponto de atenção está nas mortes violentas registradas como “causa indeterminada”, que somaram 17.207 em 2024 (+23,8%). Pelo modelo do Ipea, parte delas são homicídios que não foram classificados como tal: os chamados homicídios ocultos. Eles passaram de 3.755 em 2023 para 7.083 em 2024 (+88,6%) e chegaram a 14,3% do total estimado.

A distância entre a taxa estimada e a registrada chegou a 3,3 pontos em 2024. Fonte: Atlas da Violência 2026 (Ipea/FBSP)
Somados aos registrados, os homicídios estimados de 2024 chegam a 49.673, com taxa de 23,4 por 100 mil, praticamente igual à de 2023 (23,5). Na prática, a melhora de 2024 é real no registro, mas não se sustenta quando se corrige a subnotificação. Na década, o Ipea estima cerca de 55 mil homicídios ocultos.
Variação | Taxa registrada | Taxa estimada |
2014–2024 | −33,4% | −26,9% |
2019–2024 | −8,6% | −8,2% |
2023–2024 | −7,4% | −0,4% |
Desigualdade entre os estados
A violência se distribui de forma muito desigual. As maiores taxas registradas em 2024 estão no Amapá (45,7), na Bahia (40,9), em Pernambuco (37,3), em Alagoas (35,9) e no Ceará (34,3). As menores, em São Paulo (6,6), Santa Catarina (8,1), Distrito Federal (10,3), Minas Gerais (12,8) e Rio Grande do Sul (15,2).

Taxa de homicídios registrada por UF em 2024. Fonte: Atlas da Violência 2026 (Ipea/FBSP)
Pela taxa estimada, o quadro muda: 16 unidades da federação ficam acima da média nacional de 23,4, o Ceará sobe para o 2º lugar (43,7) e São Paulo passa a ter a 3ª menor taxa (12,8), atrás de Santa Catarina e do Distrito Federal. Maranhão e Ceará foram as exceções à queda em 2024.
Minas Gerais: menor taxa, maior salto oculto
Minas Gerais tem a 4ª menor taxa registrada do país. Em dez anos, o estado reduziu sua taxa em 44,8%, acima da média nacional (−33,4%), e registrou 2.731 homicídios em 2024.
Em 2024, no entanto, a taxa estimada do estado subiu 25% em um ano, de 14,8 para 18,5. Os homicídios estimados passaram de 3.153 para 3.949, e os ocultos, de cerca de 358 para cerca de 1.218. É a maior distorção entre registro e estimativa no país. Para fins de política pública, o indicador registrado do estado não deve ser lido isoladamente.

Minas Gerais: taxa registrada em queda e taxa estimada em alta de 25%. Fonte: Atlas da Violência 2026 (Ipea/FBSP)
Armas de fogo e a pergunta sem resposta
Armas de fogo estiveram em 70,1% dos homicídios de 2024 (29.870 casos), a menor participação desde 2014, com queda de 8,8% em relação a 2023. A participação varia muito entre os estados: chega a 85,6% no Ceará e a 83,9% na Paraíba, e fica em 40,6% no Distrito Federal e em 43,7% em Roraima.

Participação das armas de fogo nos homicídios em 2024. Fonte: Atlas da Violência 2026 (Ipea/FBSP)
O Atlas associa a flexibilização do acesso entre 2019 e 2022 a desvios para o mercado ilícito, mas não apresenta números que quantifiquem essa relação. A lacuna é maior: não existe base oficial nacional que diga quantas armas do crime eram legais e foram desviadas e quantas vieram de contrabando.
O que existe são estudos estaduais e auditorias pontuais:
• Fabricação nacional: levantamentos com armas apreendidas em diferentes estados e períodos apontam de 53% a 87% de armas curtas de fabricação brasileira, boa parte fabricada antes de 2003.
• Rastreamento limitado: cerca de metade das armas apreendidas tem numeração raspada, o que impede identificar a origem.
• Auditoria do TCU: o Acórdão 949/2024 encontrou 3.873 armas apreendidas em São Paulo entre 2015 e 2020 (8,1% do total analisado) compatíveis com armas registradas por CACs; só 86 delas constavam como furtadas ou extraviadas. O recorte vale apenas para São Paulo.
• Fuzis: neste segmento predominam armas estrangeiras ou sem marca, e a Polícia Federal tem desmontado fábricas clandestinas que montam fuzis com peças importadas.
Quem mais morre
A queda dos homicídios não chegou a todos da mesma forma.

Jovens e pessoas negras entre as vítimas de homicídio. Fonte: Atlas da Violência 2026 (Ipea/FBSP)
• Jovens de 15 a 29 anos: 301.825 mortos entre 2014 e 2024, 46,5% das vítimas da década. Em 2024 foram 19.801, com taxa de 42,2 por 100 mil; entre os homens jovens, a taxa chega a 78.
• Pessoas negras: 77% das vítimas em 2024 (32.820), com taxa de 27,3 por 100 mil, contra 10,1 entre não negras. O risco é 2,7 vezes maior. Em dez anos, os homicídios de pessoas negras caíram 21,7%, contra 38,9% entre não negras.
• Mulheres: 3.642 assassinadas em 2024 (taxa de 3,4 por 100 mil), 67,5% delas negras. A taxa de homicídios fora de casa caiu de 3,47 para 2,17; dentro de casa, ficou praticamente estável (de 1,25 para 1,18). Foram 187.958 notificações de violência doméstica em 2024.
• Povos indígenas: os homicídios cresceram 5,1% em 2024, na contramão do país, e a taxa (24,6 por 100 mil) ficou 22% acima da nacional.
• Pessoas LGBTQIA+: 10.250 notificações de violência contra lésbicas, gays e bissexuais e 5.575 contra pessoas trans e travestis em 2024, somando 15.825. A declaração de óbito não registra orientação sexual nem identidade de gênero, o que impede medir homicídios desse grupo pelo SIM.
Os limites dos números
Os próprios autores apontam ressalvas importantes. A subnotificação varia entre estados e anos, o que afeta comparações. Parte do aumento nas notificações de violência contra grupos específicos reflete a melhora do registro na rede de saúde. E as estimativas de homicídios ocultos dependem de um modelo estatístico, não de uma contagem caso a caso.
O que vem a seguir
Os dados reforçam que segurança pública se discute com estatística de qualidade. As frentes de transparência que o próprio levantamento evidencia são:
• a classificação das mortes de causa indeterminada;
• o rastreamento das armas apreendidas;
• a integração dos cadastros do SINARM, da Polícia Federal, e do SIGMA, do Exército.
A próxima edição do Atlas, com dados de 2025, é esperada para maio de 2027. Antes disso, o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, publicado em julho, já trouxe os registros policiais de 2025.
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