Mercado bélico enfrenta momento desafiador

Entre os anos de 2019 e 2022, durante o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro, o número de armas registradas por caçadores, atiradores e colecionadores (CACs) aumentou consideravelmente, ultrapassando, em julho de 2022, a marca de 1 milhão.

Conforme dados do Instituto Igarapé, o acervo de armamentos registrados no Sistema Nacional de Armas da Polícia Federal (Sinarm/PF), em posse dos CACs no Brasil, subiu de 350.683 para 1.006.725 entre dezembro de 2018 e julho do ano passado, o equivalente a um aumento de 187%.

Em julho de 2023, um novo decreto sobre a regulamentação de armas no Brasil foi assinado e com ele mudanças na política de controle de armas estão preocupando a categoria. O número de novos portadores de armas de fogo está cada vez menor e o número de registros de armas (CR) também está em constante queda.

A redução, no entanto, traz grande impacto para o segmento voltado a este público, como estabelecimentos de tipo esportivo e lojas de caça e pesca.  Fábio Lopes, do Centro de Treinamento e Tiro Hunters, avalia a situação como preocupante, embora as armas permitidas estejam sendo vendidas normalmente. Devido à queda no número de armas permitidas nos acervos, “o impacto é de 80% no faturamento de lojas e clubes”.

Na mesma situação, o empresário mineiro João Carlos Amaral*, revelou que o faturamento do seu clube de tiro vem sofrendo com grandes prejuízos. De acordo com ele, o impacto financeiro foi estrondoso, caindo cerca de 90%. “Podemos perceber prejuízos com estoques, demissão em massa e até fechamento de empresas. O novo decreto está acabando com o tiro esportivo”.

Adilson Sabbagh, presidente do SK Clube de Tiro e Caça e vice-presidente da Associação de Lojistas e Clubes do Paraná, afirma que as novas regras atingiram duramente as lojas de armas. “Se fizermos um recorte somente em agosto, que foi o mês seguinte à divulgação do novo decreto, a queda foi brutal. Arrisco dizer que foi de 90%, até porque ele deixou muitas dúvidas para quem comercializa e para quem compra. E isso acaba refletindo numa redução das vendas diretamente”, lamenta.

“O novo decreto traz uma série de situações pouco esclarecedoras. Por isso, precisamos aguardar a regulamentação do Exército e da Polícia Federal para saber como se dará na prática. O decreto estabelece algumas regras que na prática não são possíveis de serem cumpridas, então, teremos que aguardar a regulamentação para podermos nos adequar a esta nova realidade”, completa.  

Para o empresário, as perspectivas não são nada promissoras, “pois restringiu o que poderemos comercializar. Além de que, se algumas das exigências forem atendidas, aumentará muito os custos fixos dos lojistas, podendo até a inviabilizar alguns negócios”.

Segundo o novo decreto, os clubes de tiros deverão ficar a pelo menos 1km de distância de escolas públicas ou privadas. E o horário de funcionamento é limitado entre 06h e 22h. “Isso simplesmente fecha todos os clubes de Belo Horizonte. Dessa forma, teremos apenas clubes em estandes abertos no interior. Seria o fim do segmento”, revela Márcio Costa, proprietário do Clube Tiro Rápido.

Ele também foi enfático ao falar sobre a atual situação do setor: “é absurdo, pois continuamos com quase 100% das despesas, mas com apenas 30% do faturamento que estávamos acostumados. Os clubes estão nas últimas. A regulamentação deve sair em breve, no próximo dia 21 de setembro, e a gente precisa voltar a trabalhar”, desabafa.

Insegurança jurídica

Em entrevista à Triggers Magazine, o fundador do ProArmas, deputado federal Marcos Pollon (PL-MS), lamentou a situação que o setor bélico do país se encontra. “Desde janeiro, o mercado recuou significativamente, são poucas operações realizadas e poucas vendas, principalmente pela insegurança jurídica. Isso é assustador, pois tínhamos um segmento pujante da economia e que certamente movimentaria mais do que um setor de concessionária de motos, por exemplo. E o governo está tentando destruir o segmento independente de critérios técnicos. O segmento tem sofrido muito com isso”.

Nesse sentido, a categoria aguarda a regulamentação do decreto para dar os próximos passos.  “Não há perspectiva de mudança no cenário atual até que as portarias do Exército sejam publicadas para regulamentar o novo decreto”, afirma o empresário Fábio Lopes.

“Enquanto aguardamos a regulamentação do Decreto, o segmento tem comercializado somente os produtos que estão liberados. Nossa maior dificuldade no momento é que não sabemos ainda como as coisas acontecerão na prática, o que gera muita insegurança nas pessoas e consequentemente no segmento. O que temos que ter em mente é que precisamos nos adaptar às novas regras”, conclui Adilson Sabbagh.

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